Elio Gaspari saúda o novo site da ACIE
Uma página dessas era tudo o que grandes jornalistas gostariam
de ter tido quando passaram pelo Brasil. Aquela geração
que procurava telefones no interior do Brasil, aparelhos
de telex nas noites do Rio de Janeiro e portadores de correspondência
no saguão do aeroporto.
Na noite de 13 de dezembro de 1968, Claude Erbsen poderia
ter pedido a um amigo que mandasse um email para a redação
da Associated Press, em Nova York, informando que os censores
tinham acabado de entrar na redação. Fez melhor. Como não
havia Internet e Claude tinha certeza de que a AP seria
censurada, avisou que se o escritório do Rio transmitisse
uma previsão do tempo, isso significava que tinha acabado
de ser censurada. Os censores nunca souberam como Nova York
descobriu que eles tinham acabado de entrar na redação da
AP.
No dia 31 de agosto de 1969, Kurt Klinger, o barba-ruiva
da DPA, poderia ter sido mais detalhado ao informar que
o presidente Costa e Silva tivera um derrame cerebral e
que nas próximas horas uma Junta Militar assumiria o poder.
Klinger mandou um flash para Bonn e, com isso, informou
aos brasileiros algo que poucas pessoas (menos de 50) sabiam
estar acontecendo. Por telex, foi breve.
Os seqüestradores do embaixador suiço Giovanni Enrico Boucher
não teriam necessidade de entregar a François Pelou, da
Agência France Presse, a lista de 70 presos cuja libertação
exigiam. Bastava mandar um email para a Associação. (E Pelou
não teria sido expulso do Brasil.)
Tudo isso parece uma conversa destinada a ensinar padre-nosso
a vigário, como se os correspondentes estrangeiros não conhecessem
as virtudes da Internet. Não é. Trata-se de uma ligeira
lembrança de quão importante é o trabalho desses jornalistas
que passam horas tentando falar com alguém na Funai ou buscando
uma informação sobre a produção nacional de computadores.
(Em geral não conseguem nem uma coisa nem outra.)
É a eles que a imprensa brasileira deveu páginas memoráveis,
tanto de Joe Novitsky, relatando as brutalidades da ditadura,
quanto de Marlise Simmons, informando ao Brasil a importância
do assassinato de Chico Mendes.
Com esta página, tomara que se lhes deva mais.
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