
A ACIE
Rio de Janeiro, 16 de março de 2011.
Caros colegas,
Esta carta é a terceira na série do novo site da ACIE. A primeira sendo do mestre Elio Gaspari ressaltando a importância da imprensa estrangeira na história do Brasil. Logo seguida pela carta do correspondente Emilio Lacave que define a Internet como “companheira inseparável, amiga de todas as horas e... inimiga feroz do jornalista”. O debate sobre o papel da imprensa na era da internet não poderia ser mais atual com o Wikileaks e suas repercussões.
Nesta difícil tarefa de suceder meus antecessores, optei por falar de um olhar estrangeiro, saudoso da Brasil.
Poderíamos nos remeter a uns 500 anos atrás, quando um aventureiro alemão, Ulrich Schmidel, citou o Brasil como um país de selvagens, nus, ferozes e canibais… mas entretanto, fazendo um fast-forward, chegamos ao século XXI, no momento em que Brasil simboliza, para o mundo, o progresso.
O Brasil encontra-se em alta, tanto no prestigio político como nos esportes ou na cultura. O Lula se tornou o Pelé da luta social. A avalanche de divisas bate recorde. As empresas verde-amarelas conquistam novos horizontes; a Petrobras reina no fundo do mar, a Vale na terra e a Embraer no ar. O mundo abraça sua música e sua miscigenação, tentando decodificar a poção mágica de sua identidade única.
Estrangeiros encantam-se com um povo alegre e afetuoso, onde reina a informalidade. Até os presidentes são citados pelo primeiro nome ou por apelidos, surpreendem-se. Acostumados a camisa de força de sociedades mais formais, estes observadores ficam embriagados com a energia contagiosa dessa descontração.
O Brasil também seria chamado, séculos atrás, de pouco sério. Seu povo organiza a maior ópera popular do mundo e diverte-se com fantasias. Mas porque tamanha fixação com o Carnaval? Não seria este um clichê? Me perguntaram. Ao contrario, diria que a arte e genio da criatividade se expressam com forca avassaladora. O antropólogo Roberto da Matta diz “o Carnaval teria como primeiro significado criar um momento finito, algo concreto e palpável como uma forma de manifestação da sociedade brasileira.”
Assim como o Carnaval seria um momento tangível de se ser brasileiro, a Baia de Guanabara e o Cristo Redentor, poderiam ser o logotipo do Brasil. Com este pano de fundo, na década de 60, visionários correspondentes estrangeiros escolheram esta cidade para fundar a sua sede. A ACIE, constituída nos moldes dos legendários clubes de imprensa de Londres, Washington ou Hong Kong, está as vésperas de completar meio século no Rio de Janeiro.
No decurso desses anos, inúmeras reportagens foram escritas, esculpindo a imagem internacional de um país em transformação. Faltaria espaço para citar as mais relevantes, logo, portanto me limitarei a três matérias que receberam reconhecimento da imprensa brasileira. “A Volta das Hidrelétricas”, de Mario Osawa, do IPS , aborda o modelo energético. Esta matéria, escrita há 10 anos, não poderia ser mais atual, devido à controvérsia da Usina de Belo Monte em curso. “O Grande Fracasso”, de Mac Margolis, da Newsweek, levanta a problemática da reforma agrária e o uso social da terra. Da terra do Beckenbauer, “Nuvem de Suspeita”, de Jens Glusing, do Der Speiguel, lida com o tema da corrupção no futebol.
A Bossa Nova, na década de 60, conquistou o imaginário internacional e eternizou a Garota de Ipanema, com “seu balanço que vem e que passa a caminho do mar. Ah porque tudo é tão triste”, diz a letra, em uma linguagem despojada e coloquial. A nova paixão, sem o romantismo da autora, que cativa as batidas do coração do mundo, é a economia do Brasil de US$ 1.6 trilhões e os possíveis investimentos em suas riqueza naturais. Com a forca da ilustre criatividade do povo, a primeira mulher Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, fica no desafio de pilotar o projeto em curso- o Brasil no futuro.
Paula Gobbi, cobriu o Brasil para o Los Angeles Times e The World.
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